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Um pouco de caos, por favor

A artista holandesa Lino Hellings vive e trabalha em Amsterdam. Mas seu estúdio já foi as ruas de cidades como Lagos, Dhaka, Bishkek e São Paulo. E justamente na capital paulista ela se deu conta, entre outras coisas, de que a Holanda, em momentos de crise, talvez possa se beneficiar com um quê da informalidade e da desordem do “jeitinho brasileiro”.

por Luiza Fagá

Foto de Sylvia Sanchez feita em São Paulo para o projeto P.A.P.A.

 

Trabalhar coletivamente faz parte do cotidiano de Lino Hellings desde o princípio de sua carreira. Em 1975, ela cofundou o Dogtroep, um grupo de teatro de rua em que atuou como performer e musicista. A história durou 17 anos, e nesse período Lino acompanhou muitas transformações nos locais em que a trupe se apresentava. “Acho que a atmosfera dos espaços públicos mudou bastante entre os anos 1980 e o começo dos 1990”, diz ela. “Os centros europeus se transformaram em áreas de consumo bem parecidas, as mesmas grandes redes de lojas se espalharam por toda a Europa. Antes disso, eram propriedade do povo, dos habitantes das cidades. Mas aí viraram esses espaços de consumo onde muita coisa é proibida.”

Em 1992, então, Lino deixou o grupo de teatro. Mas não abandonou os espaços públicos – ao contrário: foi ao encontro deles, em diferentes partes do mundo, e incorporou ao seu trabalho a internet, aquele gigantesco espaço público virtual.

 

Imagem feita por Shahidul Alam em Dhaka, uma das cidades visitadas pela P.A.P.A.

 

“Realidade é o que você faz dela”

Depois de produzir várias pesquisas e intervenções artísticas na Holanda, Lino criou a P.A.P.A. – Participating Artists Press Agency, ou agência de notícias de participação artística, uma rede internacional e colaborativa que esteve em atividade entre 2009 e 2011. Idealizadora do projeto, Lino entrou em contato com fotógrafos profissionais e amadores das cidades que a P.A.P.A. visitaria – Dhaka, em Bangladesh, a nigeriana Lagos, Rotterdam, na Holanda, Bishkek, no Quirguistão, e, no Brasil, São Paulo – e, com eles, saiu às ruas para caçar imagens reveladoras de suas culturas. Os registros foram publicados na rede, em uma plataforma virtual (papaplatform.com) que possibilitou a comunicação entre os artistas envolvidos e que conecta o resultado da ação nas várias cidades em que ocorreu.

Para Lino, mais do que a habilidade técnica do fotógrafo, o que conta em um projeto como esse é a atenção aos detalhes. “Esse trabalho nos fez ver com olhos frescos as cidades que percorremos. Os fotógrafos com quem trabalhei sempre diziam, no começo do processo, que não havia nada para ver. Mas assim que saíam às ruas eles mesmos se surpreendiam com o que acabavam encontrando.”

No começo do projeto, porém, nem mesmo sua idealizadora pensava que as cidades ofereceriam tanto assim para ver. “Quando comecei, achei que iríamos criar notícias com as nossas ações, mas, já na nossa primeira parada, percebi que não havia necessidade disso, pois a realidade supera qualquer tipo de fantasia.” A primeira cidade visitada pela P.A.P.A. foi Lagos, a maior da Nigéria e a segunda maior da África. “Lagos é surpreendente, você vê uma família de quatro pessoas sobre uma mesma moto. E não raro eles ainda levam duas cabras. É o tipo de coisa que não se inventa, mas que, lá, acontece o tempo todo.”

Às vezes, porém, a cultura local transparece em sinais mais sutis, que, para um observador de fora, carregam valores nada explícitos. “Em outra foto de Lagos, vemos um carro com um barril de plástico sobre o capô. Antes eles escreviam ‘à venda’ no barril, mas agora o próprio barril virou um sinal que todos de lá já conhecem. Mostrei essa foto a uma artista libanesa e ela me disse que, na Líbia, quando os vendedores estão rezando, eles colocam uma vassoura na porta da loja.”

Definiu-se, assim, a realidade como matéria-prima da P.A.P.A. E a função dos artistas envolvidos seria recortá-la. “Realidade é o que você faz dela. Tem muito a ver com a nossa maneira de olhar para o mundo. A graça toda está lá, tudo o que você tem a fazer é enxergá–la. Enquadrar e reenquadrar a realidade é uma das coisas que eu mais gosto de fazer.”

 

A “vida móvel” de Lagos em foto de Israel Ophori

 

Mapas da mente

No site da P.A.P.A. há desenhos que Lino chama de mind-maps, ou mapas da mente, nos quais ela esboça relações entre conceitos–chave elaborados durante os percursos. A expressão central de um dos mind-maps de Lagos, por exemplo, é “vida móvel”.

E essa expressão se desdobra em outras, como “quartos móveis”, “cristianismo móvel” e “fornecimento de água móvel”. “Tudo é móvel em Lagos, tudo acontece nas ruas. Se você quer consertar suas roupas, por exemplo, você pode encontrar um homem andando pelas ruas com uma máquina de costura sobre a cabeça.”

Com as imagens e os mind-maps produzidos, pode-se estabelecer inúmeras relações entre diferentes cidades. “Fizemos uma série de fotos sobre quartos públicos. Vemos pessoas dormindo confortavelmente em bancos espalhados por diversas cidades – e os bancos aqui da Holanda, onde é proibido dormir em espaços públicos, são vistos desocupados, vazios. Afinal, são construídos de modo que não se possa deitar neles – o que, acredito, é um tanto cruel. Na África, por sua vez, eles dizem: ‘Obedeça ao curso natural; durma quando você está cansado, coma quando você tem fome e trabalhe quando há um cliente’.”

São essas conexões que fazem com que a P.A.P.A. seja mais do que um apanhado de especificidades relativas a cada cidade: trata-se de uma teia que costura e reflete sobre os modos de vida humanos – e urbanos. “No começo, os fotógrafos com quem trabalhei não conseguiam acreditar que depois que repetíssemos o processo em cinco cantos do mundo chegaríamos a um trabalho coerente. Mas há coerência, pois todos nós temos que encontrar caminhos para atravessar a vida, e, a princípio, são as mesmas coisas que nos guiam. Somos todos humanos. Nós comemos, dormimos, fazemos amor, temos que sobreviver e ganhar dinheiro. Há muitas similaridades no simples fato de que temos as mesmas necessidades.”

Mas as semelhanças notadas nem sempre estão ligadas a essas necessidades humanas. Há detalhes curiosos, como o que Lino batizou de electric wire ornaments, ou enfeites de fios elétricos: aqueles pares de tênis que vemos, com tanta frequência em São Paulo, pendurados em cabos de energia. “Isso acontece aqui em Amsterdam também.

E em Lagos. A P.A.P.A. estimula as pessoas a buscarem detalhes como esse em seus próprios arredores.”

 

Electric wire ornaments registrados por Giovana Pasquini em São Paulo

 

Informalidade para importação

Há um mind-map de São Paulo a cuja expressão central, algo como “o jeitinho brasileiro”, liga-se a definição “caos organizado”. “Acredito que o ‘caos organizado’ tem a ver com uma maneira de estar sempre entre o formal e o informal, e de saber lidar com isso – o que é muito difícil para os holandeses. Nós não conseguimos. Aqui na Holanda tudo tem que ser formalizado”, conta Lino, que usa outra comparação para explicar seu ponto de vista sobre seu próprio país – e o futuro dele: “Em Lagos se diz ‘Sem contribuição, sem consumo’, mas aqui o lema é ‘Sem consumo, sem produção’. Somos forçados a consumir – caso contrário, não haverá mais trabalho e a economia vai falir. E isso gera um sentimento muito desagradável, é quase como se você fosse forçado a comer, e não é nem um pouco convidativo para a criatividade. Estamos passando pela crise financeira. Ainda não a sentimos tanto, mas sabemos que o padrão de demolir coisas e construir outras no lugar para criar empregos já não poderá ser sustentado por muito tempo. Então teremos que encontrar outras maneiras de manter a vida fresca e vívida”.

E algumas dessas maneiras, sugere Lino, têm a ver com a arte e o tal do “caos organizado” que ela encontrou pelas ruas de São Paulo. “Sempre achei que o papel da arte não é o de expressar sentidos, mas sim o de abrir a possibilidade de que novos sentidos sejam criados. Há ocasiões, portanto, em que ela deve ser antissocial, ir contra a cultura para poder chacoalhá-la, refrescá-la.”

 

mind-map de Lino referente a São Paulo

 

Para Lino, a arte é “um luxo que vem da necessidade”. E é justamente em momentos como este, em que uma cultura precisa se transformar, se redefinir, que esse luxo se mostra mais necessário. “Nós temos a tendência de pensar que devemos ajudar outros países a se livrarem de seus ditadores, a se tornarem mais democráticos etc., mas a verdade é que nós também precisamos nos transformar. Nós precisamos da informalidade”, diz ela. “Talvez precisássemos implantar uma espécie de caos na cultura holandesa.”

O trabalho de Lino, assim como sua concepção, nasce e se nutre da tensão entre arte e ativismo. “Não sou uma ativista”, afirma ela, “mas também não sou uma artista pura, por assim dizer. Não gosto de arte desconectada da cultura, mas também não gosto de obras que são guiadas apenas por fatos, em que não há imaginação envolvida. Eu transito entre esses dois universos, eu me alimento de ambos.”

 

Luiza Fagá é cineasta. Paulistana, vive atualmente em Amsterdam.