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Para morar e para criar

Existe uma cidade ideal para a arte? O que ela precisa ter – ou deixar de ter – para estimular e melhor abrigar a produção artística em suas vias? Em busca de respostas a interrogações como essas, a Efêmero Concreto convidou a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik para um passeio de carro pelas ruas da capital paulista.
Para saber mais, sente-se aqui no banco de passageiro e, com o olhar atento na paisagem de concreto, ouça bem as palavras transcritas de Raquel.

por Lara Alcadipani
fotos Keren Chernizon | Nucci | Paul Domingos

Foto: Paul Domingos

 

“O que vivemos hoje na cidade de São Paulo – e que não é exclusivamente daqui, já que diz respeito aos campos da política urbana e da arte em geral – é uma espécie de confronto. Um confronto protagonizado, de um lado, pela prefeitura e pelo governo do estado, numa espécie de imposição de uma agenda da arte como um processo de venda da cidade, e, de outro, pelos coletivos de artistas que, presentes na cidade, apropriam-se dela, independentemente da existência de um espaço ideal para isso.

A primeira posição cresceu tremendamente nas décadas de 1980 e 1990, com a expansão do neoliberalismo e do processo de globalização econômica. Os espaços públicos foram ‘marketizados’, transformados em espaços de consumo e em vitrine para um mercado imobiliário internacional. Na segunda posição está a ideia da arte como meio de expressão dos cidadãos e como forma de problematização da vida, inclusive da vida nas cidades.

Então, em minha opinião, não existe uma cidade ideal para a arte, mas sim uma cidade onde as expressões artísticas podem e devem acontecer. A coisa mais interessante da arte é não ser confinada no ‘lugar da arte’. Os processos de intervenção urbanística e artística constituem a cidade, que se transforma com isso. Olha ali! A gente acabou de passar por um muro qualquer que é isso, expressa isso. Qual é a cidade ideal para, por exemplo, receber o grafite? Basta que ela tenha muros. E qual é a cidade que tem muros? Todas!

 

Foto: Nucci

 

A cidade atrás das grades

São Paulo é um território de fronteiras abertas, que o tempo todo está recebendo migrantes – e digerindo e incorporando suas influências. Isso faz parte de seu ethos. Mas, pelo menos desde a década de 1930, a estrutura da cidade está baseada na circulação e, sobretudo, na circulação sobre pneus, com os automóveis. E esse paradigma de organização de espaço urbano foi diminuindo gradativamente tudo aquilo que é espaço de estar.

A cidade foi perdendo, cada vez mais, um urbanismo baseado nos espaços públicos e de uso coletivo para ter, hoje, um urbanismo estruturado sob o espaço privado e controlado – com condomínios fechados, muros, guaritas e câmeras de segurança. E qual o efeito disso tudo sobre a sociabilidade? É muito grave, já que é no espaço público, de convivência coletiva, que a heterogeneidade mais radical e o encontro de repertórios podem acontecer. Já os espaços de confinamento, por sua vez, têm como característica principal justamente a seletividade. Isso vai empobrecendo as relações e as possibilidades de criação resultantes delas.

Esses prédios aqui de Higienópolis, por onde estamos passando agora, foram todos projetados sem gradil. E dá para perceber direitinho como esse gradil não tem nada a ver com o projeto original. O prédio se abria totalmente e criava um espaço semipúblico de jardim, que era uma continuidade da calçada. Mas, olhando para isso, eu fico pensando também que, em certo momento, a gente pode começar a tirar essas grades. Da mesma maneira que a gente as colocou aí, nós podemos fazer com que saiam. Elas não são estruturais, são conjunturais.

Em todo caso, estamos vivendo uma espécie de revolta dos cidadãos, que, sim, estão ocupando mais a rua. As pessoas querem dizer que a cidade pertence a elas e que, portanto, não vão viver confinadas. Vejo que os paulistanos estão tomando atitudes de rebeldia e – mais do que isso – de construção de um novo modelo. Existe uma pressão cada vez mais forte por uma transformação da cidade. Está ficando claro que a coisa mais importante não é a domesticidade, mas a qualidade de um espaço externo que pode ser para todos e que pode ser para muitos.

 

Foto: Keren Chernizon

 

Mais do que estar, pertencer

Quando a economia deixou o centro e o centro se popularizou, ele foi praticamente abandonado pelo poder público. Mas algumas propostas de revitalização da região começaram a surgir, pensando em retrabalhá-la por meio da arte. A ideia por trás dessas ações é a seguinte: vamos colocar nesses espaços alguns equipamentos de arte, porque com eles nós vamos valorizar o local e atrair incorporações imobiliárias. É o que a gente chama de ‘acupuntura urbana’ – uma ideia de investimento pontual, como se apenas isso fosse capaz de revitalizar toda uma região.

Programas assim atraem investimentos. Mas também expulsam o povo. Aqui na Nova Luz está muito clara essa tensão: entre a arte como ponta de lança de um processo de gentrificação e a arte como resistência. Se a gente passar ali pela rua Mauá, vai ver que existe uma ocupação – não artística, mas de moradia. E vários coletivos de artistas estão se posicionando sobre essa questão e dando seu apoio a esses grupos de moradores.

Os aparelhos artístico-culturais que aqui se instalaram, por sua vez, são totalmente externos à gênese desse lugar – pensados totalmente de fora, sem levar em conta um mapeamento da região, suas demandas e as questões de quem vive aqui. Trazem outro repertório, outra linguagem. É claro que deve existir a Pinacoteca, que a reforma do Teatro Municipal deve ser realizada. Tem que ter tudo isso, mas não só isso.

Sobre a questão da Vila Itororó, no Bixiga, por exemplo. A prefeitura tem um projeto para transformar o lugar em uma residência de artistas. Mas, poxa vida! E os artistas do próprio bairro – que vivem lá e muitas vezes não têm onde morar ou um espaço para criar? É como se eles não existissem e a prefeitura determinasse que o espaço deles agora pertence a artistas de fora, que vêm de outro lugar.

 

Foto: Keren Chernizon

 

Uma revolução pela arte

Acho que todas essas questões são políticas. Elas tratam de uma política para a cidade. Queremos uma cidade estruturada para desenvolver negócios imobiliários e concentração de renda ou uma cidade pensada para seus cidadãos? Eu acredito nesse segundo modelo.

O tema central é este: como combinar tantos interesses, muitas vezes conflituosos e concorrentes? Eliminar essa competição e esse conflito não é possível. Mas o valor mercadológico, financeiro – a dimensão do espaço da cidade como mercadoria –, não pode ser o único valor. Deve haver espaço para outros valores. E é aqui que se encaixam as dimensões artística e cultural.

Existe muita resistência criativa. Os coletivos de artistas – seja do teatro, seja do grafite ou da música, para mencionar alguns que eu acompanho mais de perto – estão cada vez mais voltados para a discussão dessas questões, fazendo propostas e intervindo sobre a cidade. Todos os dias, pequenas grandes revoltas são manifestadas, muitas delas convocadas instantaneamente por meio de redes sociais.

Então, é preciso parar para refletir: o que dá mais resultado – gastar milhões para a construção de um centro cultural ou apoiar descentralizadamente, dando condições para que todos os projetos, em seus lugares de origem, floresçam e cresçam?

Quem ganha mais com o quê? Para mim, uma política de apoio à arte na cidade é uma política de apoio aos produtores culturais onde eles se encontram. Se os grupos de teatro não têm um local para ensaiar, há diversos prédios públicos vazios e subutilizados que poderiam ser disponibilizados para isso, respeitando o território e a origem desses grupos. Atitudes assim impactam muito mais gente do que o modelo mainstream vigente, no qual um artista ou outro eventualmente recebem o apoio de uma marca para realizar seu trabalho. A questão, mais uma vez, é avaliar quem ganha mais com cada um desses modelos.

Se a gente quiser aproveitar o potencial que esta cidade tem para a criação artística, pode experimentar soltar só um pouquinho desse dinheiro todo para as pontas da sociedade e ver o que vai acontecer. Uma revolução pela arte será realizada!”

 

Lara Alcadipani é jornalista pós-graduada em estéticas tecnológicas.