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Quién diablos és el barbudo?

O escritor Joca Reiners Terron despeja seu portunhol selvagem em pontos de um Bom Retiro aparentemente apático.

por Paula Desgualdo
fotos André Seiti

Foto: André Seiti

 

O cara é alto, careca e barbudo. Microfone na mão, lê em tom solene uma frase que atravessa a rua Três Rios, na região central de São Paulo: Su sonrisa és como el asiento helado de la privada. Nem tão solene. A mesma caixa de som que amplifica a voz reproduz uma música ambiente. Quem a pilota é outro sujeito. Mais cabelo, menos barba – é a aparência, afinal, o que mais conta nos caminhos da metrópole.

A leitura segue. Digo a él que necesito plata. A toneladas. No Mercado da Moda, uma das lojinhas que ficam do outro lado da rua, uma senhora assegura que aquilo não é espanhol de verdade. Ela é argentina, sabe o que diz. Pois bem, minha senhora: “El banquero”, o poema que é lido em frente a uma agência do Santander, está escrito no mais puro – se é que, neste caso, podemos falar em pureza – portunhol selvagem. Ou portunhol salbaje, expressão cunhada pelo poeta Douglas Diegues e que faz referência à mistura de português, espanhol e guarani falada na fronteira do Brasil com o Paraguai. E que gerou experimentações literárias, ou uma espécie de movimento, nas mãos de escritores como o próprio Diegues, Wilson Bueno, Xico Sá…

 

 

… e Joca Reiners Terron, o cara alto, careca e barbudo que agora está ali, ao lado do músico e sonoplasta Miguel Caldas, em pleno Bom Retiro, declamando a quem quiser ouvir os poemas do inglês Malcolm Lowry e dos norte- -americanos Jim Dodge e Stephen Dobyns que ele traduziu para o dialeto da fronteira. Si usted no estás confuso entonces no tá entendiendo nada.

E quem passa parece mesmo não entender. Ou não se importar. Um homem moreno de cabelo muito liso para e escuta por um, dois, três, alguns poucos segundos, antes de checar o entorno com uma breve olhada e voltar a caminhar. Quatro mulheres de olhos puxados andam indiferentes, uma delas empurrando uma criança no carrinho. Os dois rapazes que conversam ali perto não interrompem a prosa. “O pilantra lá só sabe falar de deus e tava desfilando com a mulher”, pragueja o da esquerda. Nem o segurança do banco pede ao leitor e ao camarada do som que se retirem para a calçada de outro estabelecimento. Não precisava: finda a leitura do poema, a dupla se retira em direção ao bar da esquina.

 

 

Multiculturalismo y afines

A calabreza, com “z” mesmo, custa dez reais. Acompanham arroz, fritas, feijão e ovo. Uma garrafa de Itaipava sai por quatro e cinquenta, informa a lousa do lado de fora do bar, próximo à qual a dupla se instala e dá início à leitura de “Oración a los borrachos”. El ronquido de la muerte acá neste bar desolado… Duas meninas coreanas se aproximam e cochicham, mãos cobrindo a boca para a risada não escapar. Provavelmente não eram nascidas quando, em 1989, o vereador Waldemar Feldman propôs que o nome da rua onde elas pisam agora fosse trocado de Correia dos Santos para Lubavitch. O bairro é reduto da comunidade judaica, justificou o político. Não só, senhor vereador: é abrigo também dos coreanos, dos italianos, dos latino- -americanos, das calabrezas com “z” – que os judeus religiosos, por sinal, nem podem comer.

Conta um desses livros didáticos sobre educação patrimonial que, no século XIX, o Bom Retiro era um conglomerado de chácaras de descanso da elite paulistana. Aí construíram a Estação da Luz e a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, e um batalhão de imigrantes que desembarcava no Porto de Santos para tentar a sorte no Brasil veio para São Paulo. Milhares foram recrutados para trabalhar nas lavouras de café no interior do estado. Outros tantos se estabeleceram nas proximidades da estação. Italianos, principalmente, viraram operários de fábricas e se alojaram no bairro, uma das primeiras regiões industriais da cidade.

Depois da Primeira Guerra, chegam os lituanos, poloneses e russos. Judeus, em sua maioria. Nos anos 1970, os coreanos; 1980 e 1990, latino-americanos. E voilà. Está pronto o caldo bom-retirense, com uma mistura de sotaques que não deve muito ao portunhol selvagem. Mas aqui, no entanto, o idioma é outro, e as pessoas reagem como estrangeiros aos poemas que saem da caixa de som. Cualquier uno amassa los tomatos; lo foda és que hagan el jugo, proclama nosso orador. Tem gente que espreme os olhos em sinal de incompreensão. Alguns observam por breves minutos. Outros se perguntam quem diabos é o barbudo. A maior parte simplesmente os ignora.

 

 

Nada más

O paredão de lojas na rua da Graça não deixa dúvidas. Estamos em um dos maiores centros atacadistas da moda paulistana. Fábricas de tecido, confecções, acessórios: tudo do que você mais precisa está aqui. Com os manequins da Equipaloja ao fundo, a caixa de som vibra novos versos. La mujer viaja hasta Brasil para una cirurgia plástica y una transformación en el rostro. Tiene sesenta años y lo deseo normal de ficar hermosa. Quem presta mais atenção nas palavras, ao que parece, são justamente aqueles seres de plástico aos quais o leitor dá as suas costas e que já têm o corpo esbelto e durinho, nem precisam de cirurgia plástica.

O mesmo texto é lido minutos depois na Galeria Nova José Paulino.

E é sempre a mesma coisa. O cara fala de consumo, vaidade, vício, crime, poder e a cidade finge que não é com ela. Conflitos sociais? Imigração ilegal? Exploração do trabalho? Aqui não. Até as ruas estão atipicamente vazias, como se corroborassem para manter a aparente tranquilidade. “É segunda–feira”, explica o dono da pastelaria, “o povo tá todo no Brás.”

A dupla que carrega o microfone e o amplificador bairro adentro não está nem um pouco incomodada com a apatia. Bate papo normalmente no trajeto entre os pontos escolhidos para a leitura. O barbudo confessa que não esperava nada. Vergonha? Não, está acostumado a ler em público. Foi lá e fez. Ponto.

Mas o que seria, para eles, um “saldo positivo”? Escândalo? Tumulto? Como saber se o silêncio no qual suas palavras ecoaram é realmente um sinal de indiferença? É possível, enfim, medir os efeitos de uma intervenção na cidade assim como se conta o número de exemplares vendidos de um livro? No mordiske por ahí y allá tus paranoyas. A frase não diz muita coisa, só está aí para não deixar as perguntas sem resposta. Apenas uma questão de aparência.

 

 

El comienzo

Foi Joca Reiners Terron que assinou a dramaturgia do espetáculo Bom Retiro 958 metros, do Teatro da Vertigem – companhia que já utilizou locais como um hospital, um presídio e o rio Tietê como palco de suas apresentações. A peça, cuja ação ocorre nas ruas do bairro paulistano, estava prestes a estrear quando o escritor recebeu da Efêmero Concreto a proposta de elaborar e realizar uma intervenção no espaço urbano. “A intervenção é livre”, dizia o convite, “pode abordar qualquer tema, pode ser algo breve e efêmero, pode ser algo mais complexo e chamativo.”

Terron aceitou o convite. “Enfim vou poder colocar em ação minha ‘porção Sophie Calle’”, comentou. E, depois de alguns dias, veio com a ideia. “A peça [Bom Retiro 958 metros] é noturna, acontece num horário em que não tem (quase) ninguém nas ruas – como sabem, o Bom Retiro é eminentemente comercial. Então pensei no seguinte: dar um passeio com Miguel [Caldas, coautor da trilha sonora do espetáculo] e seu som pelo bairro. Ele coloca uma sonzeira climática de fundo. Eu leio uns textos, uns poemas, umas provocações. E a Paula escreve sua matéria com base na reação da malta multiétnica do bairro, coreanos, judeus e latino- -americanos dos quatro cantos.”

O resto da história você já conhece. Y se acabó.

 

Paula Desgualdo é jornalista e estuda letras hispano-americanas.