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A cidade está nua

Despir-se em público, ou em locais supostamente públicos, pode ser visto como um ato de loucura, uma graça gratuita, um desacato ao pudor. Pelas lentes de artistas como Spencer Tunick, Pablo Saborido e Erica Simone, entretanto, a atitude ganha novos significados: despir-se em pleno espaço urbano pode ser, também, uma maneira de despir o próprio espaço urbano.

por Ricardo Oliveros

Foto da série Nue York, de Erica Simone | divulgação

 

O rei desfilava na sua carruagem, mostrando à população a sua nova e magnífica roupa – visível, de acordo com os supostos alfaiates que a produziram, só pelas pessoas mais inteligentes. E todos aqueles que assistiam à parada, espertos que são, faziam questão de elogiar o tecido, o corte, as cores da tal da roupa – exceto uma criança que, ao notar o óbvio e gritar “o rei está nu!”, fez com que o povo compreendesse aquilo que de fato estava vendo: um rei pelado.

Assim como o garoto do conto de Hans Christian Andersen, os artistas Spencer Tunick, Pablo Saborido e Erica Simone mostram corpos nus ao público. Mas podemos dizer que o foco de suas obras não é o indivíduo em si, mas sim o espaço em que ele se insere. Em vez de dizer “o modelo está nu”, elas gritam “a cidade está nua!”, revelando, assim, certas questões do atual cotidiano urbano.

 

Foto da série Construcción-Desnuda, de Pablo Saborido | divulgação

 

O nu coletivo e o nu individual

Por diferentes razões – sociais, políticas, culturais, econômicas –, a distinção entre o que é público e o que é privado torna-se cada vez mais complicada. Pouca gente sabe, hoje em dia, o que pertence ao terreno de um e de outro. Ao mesmo tempo causa, consequência e “solução” dos conflitos urbanos, a construção de shopping centers e condomínios fechados, por exemplo, acabou transformando a cidade num local repleto de muros e câmeras de vigilância – e vazia de encontros e de visibilidade. Estamos tão enclausurados em nós mesmos que os outros – ou o Outro – são de certa maneira invisíveis no nosso dia a dia.

E é justamente o encontro – ou o contato direto, sem barreira alguma – entre homens e mulheres da cidade que o norte-americano Spencer Tunick, ao registrar multidões de pessoas nuas em diversos locais do mundo, promove.

 

Foto da série Construcción-Desnuda, de Pablo Saborido | divulgação

 

“Naquele momento”, diz o arquiteto André Goldman, que participou da performance realizada por Tunick em 2002 durante a Bienal de São Paulo, “apesar de estar no mesmo espaço e no mesmo corpo de outrora, eu vivenciava novas experiências sensoriais e, sobretudo, sociais e culturais – apenas por estar pelado. A perda da noção do proibido em relação às ‘partes íntimas’ me fez perder também o excesso de erotização relacionado ao sexo. Estávamos, de fato, todos pelados e despreocupados com sexo ou vergonha: era natural!”

Enquanto Tunick foca um coletivo, um aglomerado de pessoas peladas, Pablo Saborido, argentino radicado em São Paulo, retrata indivíduos desprovidos não só de roupas, mas também da tal convivência com o Outro. Na série Construcción-desnuda, ele mostra seres nus e solitários inseridos em lugares vazios e silenciosos de cidades como São Paulo, Buenos Aires, Barcelona, Paris e Jerusalém.

“Penso que meu trabalho sugere um desajuste entre o homem e o espaço que ele habita, bem como a luta para conseguir reestabelecer um equilíbrio”, comenta o artista. “É um trabalho otimista, que acredita no sucesso dessa procura.”

 

Foto da série Nue York, de Erica Simone | divulgação

 

Pelada com a mão no bolso

A francesa radicada em Nova York Erica Simone, por sua vez, realizou uma série de autorretratos chamada Nue York, na qual ela se mostra nua – às vezes com um sapato ou uma bota, às vezes com um cachecol, uma luva ou outro acessório – em espaços públicos de Nova York. “A ideia é evocar um questionamento básico sobre a utilidade social da roupa”, afirma ela. “A moda tende a falar por nós, antes mesmo de termos uma chance de dizer algo. Segrega e nos congrega de várias maneiras, é uma linguagem silenciosa e global. Eu queria ver como as pessoas se sentiriam nas ruas sem o amparo dessa linguagem, entender o que seria, enfim, a vida nua.”

Claro que o nu na arte não é novidade. O interessante dessas obras, porém, é que elas não trabalham na dimensão do erótico, do sensual ou do pornográfico. Tanto o corpo coletivo de Tunick quanto os corpos solitários de Saborido, por exemplo, fazem com que paremos para pensar nas relações que temos conosco, com o outro e com a cidade. E, ao nos mostrar em nosso estado mais primitivo, desnudam, de uma maneira ao mesmo tempo poética e política, a atual lógica do público e do privado.

 

Ricardo Oliveros é jornalista, mestre em arquitetura e urbanismo e curador de artes plásticas.




2 Comentários

  1. Name * wrote:

    Queria entender a razão para as pessoas manterem um medo tão grande de tudo relacionado ao sexo. Sabe, essas políticas com propagandas na TV a respeito de crimes sexuais, principalmente apelando par a fragilidade de crianças e da – mulher! – , queria entender a razão – a tendência – para esconder, mascarar, perseguir, destruir desses discursos. Acho que, principalmente a indústria e a política criam paranoias e traumas, exploram a violência latente nas pessoas para vender e obter vantagem.