revista impressa
edição 4

revista impressa
edição 3

baixar o pdf

edição 2

baixar o pdf

edição 1

baixar o pdf

Quanto vale um segredo?

Elaborar e realizar, em um mês, uma intervenção artística no espaço urbano – seja ela efêmera, seja ela concreta. Essa é a proposta que a Efêmero Concreto faz, a cada edição, a artistas ligados às mais diversas áreas.
Quem recebeu – e topou cumprir – a missão de estreia da revista foi o músico Thiago Pethit, de São Paulo. Confira o – nada secreto – resultado.

por Micheliny Verunschk
fotos Caio Palazzo | Gisele Sanfelice
ilustração Nucci

Foto: Caio Palazzo

 

Primeiro movimento

São Paulo. Manhã gelada. Na esquina da avenida Paulista com a rua da Consolação, pessoas apressadas se deparam com um homem-placa. Não um homem-placa daqueles que anunciam promoções a granel, um novo restaurante, uma oportunidade imperdível. Com notas de cinquenta reais nas mãos – e ao todo mil reais espalhados pelos bolsos das calças e do casaco –, este homem anuncia, em garrafais letras vermelhas: Compro segredos.

Um balé de olhares que se desencontram passa a ser encenado. Olhos ariscos olham a placa apressadamente – como se, apenas por ler o anúncio, colocassem em risco os seus segredos. Os olhos não param, não se fixam, parecem querer fugir dali, mas não sem antes arriscar uma nova mirada, como se assim pudessem medir a distância segura com a qual se protegem.

Algumas mulheres se distanciam com pressa. Têm medo de quê? Os mais jovens se divertem, acham graça. Há pessoas que resmungam. Era só o que faltava, diz uma delas. Mas há também os olhos que brilham de cobiça: parece um dinheiro fácil. É isso mesmo? Você está comprando segredos? Quanto você paga?

Então surge alguém que se dispõe a vender o seu produto. Ele, um homem velho, interpela o anunciante e o pacto é feito. Diga-me qual é o seu segredo, avaliarei quanto ele vale e, caso o compre, será meu. Farei o que quiser com ele. Não precisa dizer seu nome, mas gravarei sua voz.

E, assim, segue-se uma sucessão de segredos, de negociações. Ainda na esquina da Paulista com a Consolação, um homem conta quantas vezes traiu a mulher, um casal de adolescentes fala de aventuras sexuais com travestis, meninas menores de idade relatam as baladas que fizeram numa casa de suingue, um técnico em informática explica como usou em proveito próprio as informações de um programa de monitoramento dos computadores de funcionários de uma empresa.

O comprador, banqueiro da intimidade alheia, ainda é humano. Ainda se compadece da dor do outro, sofre, se envolve, acredita que os segredos valham muito. Vê no outro um reflexo de si mesmo. Está ali para comprar, é certo, mas crê na humanidade.

 

Ilustração: Nucci

 

Segundo movimento

Praça da Sé. Tarde fria de sol. Homens-placa se multiplicam nas imediações. Compram ouro. Mulheres seguram catálogos de alianças feitas para todos os bolsos e sonhos. Não há susto nem reserva quando o banqueiro chega e anuncia a compra de segredos. Parece que todos possuem um disponível no mercado.

Uma mulher diz que recebe vinte reais por dia para anunciar seu produto. Ora, se vender algo tão impalpável quanto um segredo a cinco reais, estará no lucro. A ganância reluz e alguns tentam vender suas mentiras. Gato por lebre. O comprador vai se transformando, se põe atento. Isso é mentira, ele diz. Te dou dois reais por ter parado e falado comigo. Mas se quiser levar mais dinheiro conte um segredo que me convença. A ponte para o cinismo vai sendo construída.

A menina magrinha embarga a voz. Transei com o marido da minha mãe. Porque ele era um coroa bonito. Faz uns dois anos. Hoje não transo mais.

A mulher das alianças, de cabelos escuros, conta: Ninguém sabe quem eu sou, que fui prostituta. Isso não vale muito, diz o comprador. Conte a verdade. A verdade. Eu era muito nova. Perdi meu pai, minha mãe, meu irmão. Me envolvi com drogas, com roubo, cometi latrocínio. Fui presa. Paguei minha dívida e inventei outra vida para mim. Ninguém sabe quem eu sou, quem eu fui. Jesus me salvou. Confessionário a céu aberto. O perdão como mercadoria, pensa o comprador.

Você é psicólogo?, pergunta um rapaz. Não. Eu estou pagando, responde o banqueiro.

Os segredos se banalizam e se repetem numa espiral. Namoro uma moça, mas transo com homens. Ela não sabe. Nem meus amigos. Mas pego rapazes no estacionamento de um shopping, nas quebradas. Transei com o meu cunhado. Transei com a minha cunhada. Todo mundo que tem cunhado ou cunhada transou com ele ou com ela. O mesmo segredo se multiplica em diferentes vozes e vale pouco, bem pouco. Cinquenta centavos?

No Largo da Misericórdia, outro comprador, com sua placa amarela de compro ouro, observa a tudo calado. Instigado a vender um segredo que seja, acaba por responder: Ele não tem como comprar os meus segredos. Por que não? Ele tem dinheiro. Se for bom, ele paga. Seu segredo vale tanto dinheiro assim? Não. Dinheiro é que não vale tudo isso.

O comprador vai embora. Já não há sinal de humanidade nele. Só mais tarde vai recuperar a consciência, o sentido de remorso. No entanto, business is business.

 

Foto: Gisele Sanfelice | Ilustração: Nucci

 

Terceiro movimento

Os segredos comprados ao preço de carne de terceira ganham nova vida, concretude. Foram cortados, editados, mixados. É outro dia e, depois de uma sucessão de dias quentes, faz frio. De novo. O homenzinho do carro de som recebe o CD, e não sabe o que está gravado nele.

Imediações da avenida Domingos de Morais. O comprador de segredos segue atrás do carro de som e observa a reação das pessoas. Perante o segredo dos outros, anunciado em alto e bom som, com seu sangue, com suas chupadas, com suas mentiras, com suas traições, com sua prostituição, com seu assassinato, com sua paixão, com sua leviandade, alguns riem. Outros param, incrédulos. Outros se indignam. A cidade recebe de volta os segredos que vendeu. Recebe-os como um fragmento de conversa alheia. Um fragmento desconexo, perturbador, nervosamente engraçado, perversamente risível.

Stop.

O comprador de segredos retoma o caminho de sua casa, tece considerações, arquiteta conceitos e, enfim, vai recuperando a sua humanidade. Mas logo seus olhos brilham. Por que não leiloar esses segredos? Quem pagará mais? Qual será o lance mínimo?

 

Foto: Caio Palazzo

 

Já desencarnado de sua personagem, Thiago Pethit fala sobre a intervenção:

“Quando recebi a proposta de criar, com toda a liberdade, uma intervenção na cidade, fiquei assustado – e me senti desafiado. Ainda incerto, recorri a duas amigas – as artistas Tainá Azeredo, fundadora do projeto Casa Tomada, e Adelita Ahmed, do grupo Ghawazee – para que desenvolvêssemos uma performance com base na minha ideia inicial: trabalhar com sons e escuta na cidade mais barulhenta da América do Sul.

No começo da ação, na avenida Paulista, sentia que estava jogando contra mim mesmo. O cinismo que eu atribuía à personagem ainda estava longe de ser real – como o nome da nossa moeda. Todas as palavras que me eram vendidas pareciam valer muito, e eu me identificava com cada uma delas. E assim, ainda sem me dar conta do inferno no qual estava entrando, desci até a Praça da Sé.

O depoimento de uma mulher, presa por latrocínio, estuprada ainda muito jovem, com a vida toda estragada e que me jurava com lágrimas nos olhos que seus dias haviam mudado, chacoalhou minha alma. Por que ela contava aquilo para mim e não às pessoas mais próximas? Eu não estava ali como um psicólogo, não tinha a intenção de ajudar ou de aliviar as dores de ninguém. Minha cara e minha crueldade – sim, eu comecei a ser cruel, de verdade – não estavam à disposição do próximo. Tornei-me um grande cínico. E não me dei conta de que a personagem se instalara facilmente em mim. Não por esforço próprio, mas pelo que eu ganhava do mundo em troca das folhas de papel nos meus bolsos. Quanto mais poder eu tinha, menos valiam os segredos.

Parei o jogo quando me estafei. Não sabia ao certo se minha missão estava cumprida com louvor – nem havia me dado conta do relato de um assassinato no meio de tantos segredos. A personagem ficou perdida pela Praça da Sé e eu só consegui escutar e editar o registro dos segredos duas semanas depois. E foi então que percebi que algumas pessoas deram depoimentos muito íntimos, mas que não valiam nada. Disseram palavras duras e sujas que formavam uma história ‘sem alma’, que poderia ser narrada por uma máquina num filme de ficção científica. Mas outras pessoas, escondidas em meio a tudo isso, independentemente do que narravam, realmente me entregaram seus ouros. Os desejos, os sonhos e a humanidade de algumas pessoas ficam claros pelo tom de voz ou por uma risada sutil, como de quem percebe que disse o que jamais diria.

Nem por dinheiro.”

 

Micheliny Verunschk é escritora e mestre em literatura e crítica literária. Publicou as obras Geografia íntima do deserto (Landy, 2003), O observador e o nada (Bagaço, 2003) e A cartografia da noite (Lumme, 2010).




2 Comentários

  1. Josimar wrote:

    Uaaaaaaaaau! Caraca! Genial! Adorei! Quando quiserem fazer uma intervenção em Brasília, é só me chamar! rs