revista impressa
edição 4

revista impressa
edição 3

baixar o pdf

edição 2

baixar o pdf

edição 1

baixar o pdf

Jardineiros: uni-vos

Duas iniciativas semelhantes em Berlim transformaram espaços abandonados e utilizados como depósito de lixo em hortas e jardins – atividade conhecida mundialmente como “jardinagem de guerrilha”. Além de embelezar a cidade, esse tipo de ação nos ensina sobre perseverança, colaboração e revitalização de locais esquecidos pelo poder público e ainda nos mostra como é possível arregaçarmos as mangas e plantarmos uma cidade mais verde com as próprias mãos.

por Luiza Fagá
fotos Rodrigo Piza Levy

Foto: Rodrigo Piza Levy

 

Há, em Berlim, uma casa que chama a atenção por sua estética e localização pouco convencionais. Sediada no bairro de Kreuzberg, tem dois andares, é feita de material reciclado e fica entre duas grandes árvores – sendo que uma delas atravessa a construção. No terreno triangular ao seu redor, uma horta beirada por ruas em seus três limites.

“A casa da árvore do muro”, como é conhecida na cidade, é de autoria do imigrante turco Osman Kalin, que deixou a península de Anatólia em 1964, chegou à Alemanha no início dos anos 1970 e, no começo dos 1980, se estabeleceu em Berlim – cidade com a maior população turca fora da Turquia.

Em 1983, ele decidiu encher de vida uma área morta – um terreno que oficialmente pertencia a Berlim Oriental, mas que ficava ao ocidente do muro. Tal confusão geográfica era possível porque, apesar de a fronteira entre os territórios leste e oeste ser irregular, a construção do muro desenhava linhas retas. Como nesses espaços nada era feito, muitos viravam depósitos de lixo. Osman, então aposentado, limpou o local e lá plantou uma horta. A casa só viria a ser construída depois da queda do muro.

Hoje, aos 89 anos, o jardineiro sofre de Alzheimer. Quem conta a história é seu filho Mehmet Kalin. Ele diz que no começo os oficiais de ambas as Berlins desconfiavam de Osman. “Como meu pai passava muito tempo mexendo nessa terra, que ficava bem próxima ao muro, os oficiais achavam que ele poderia estar cavando um túnel.”

Embora incomodado com a presença de Osman, o exército ocidental se viu impedido de tomar qualquer providência, já que não tinha jurisdição sobre aquele pedaço de terra. O exército oriental, então, decidiu agir. “Oficiais armados chegaram para questionar o meu pai, que respondeu que estava apenas trabalhando. Em seguida, ele jogou seus documentos no chão, aos pés dos guardas, e disse pra eles que aquilo eram apenas pedaços de papel. Se queriam conversar, que agissem como seres humanos.” Com o tempo, o senhor Kalin conquistou a confiança dos militares, que só lhe impuseram uma condição: não construir nada mais alto que a grande muralha.

 

Foto: Rodrigo Piza Levy

 

Daqui eu não saio, daqui ninguém me tira

Aí derrubaram o muro. A primeira providência de Osman foi expandir seu terreno alguns metros sentido oeste. A segunda, reunir sucata – de madeira usada a estrado de cama – e elevar sua propriedade em direção às nuvens. “Quando meu pai começou a construir a casa, policiais passaram aqui para perguntar quantos andares ela teria. Meu pai respondeu que, do chão ao céu, aquele espaço era dele”, conta Mehmet.

Mas na história dessa horta nem tudo são flores. Após a reunificação da cidade, a prefeitura de Berlim tentou desapropriar o terreno diversas vezes. Osman sempre contou com o apoio dos vizinhos, um em especial: a igreja evangélica Saint-Thomas, cujas grandes costas de tijolo alaranjado dão de frente para a casa da árvore.

Mesmo antes da queda do muro, era da igreja que o jardineiro comprava os vários litros de água necessários para irrigar sua plantação. Quando, em 2004, a pressão para que ele abandonasse sua casa aumentou – catalisada pela valorização econômica da área onde fica o terreno –, o pastor Christian Müller tomou a frente da discussão com um argumento definitivo: o pequeno pedaço de terra ocupado pelo jardineiro pertencia, na verdade, à igreja e a casa não poderia ser posta abaixo sem prévia autorização desta. Mehmet não vê contradição no fato de autoridades cristãs oferecerem proteção para “um homem sem Deus”, em suas palavras. “Para o meu pai, as pessoas estão acima da religião. Ele respeita todo mundo e por isso é muito respeitado.”

Osman Kalin é considerado por alguns como um dos precursores da jardinagem de guerrilha (ou guerrilla gardening), movimento que propõe a ocupação de áreas abandonadas para que nesses espaços sejam plantados hortas e jardins. Seu filho Mehmet, porém, considera o termo muito forte. “Meu pai nunca quis brigar com a polícia ou com o governo; ele só queria trabalhar e, como foi ele quem plantou a horta, acreditava que tinha o direito de ficar lá.”

 

Foto: Rodrigo Piza Levy

 

O jardim móvel que não quer se mover

Também no bairro de Kreuzberg, a 1 quilômetro e meio e 24 anos de distância da plantação de Osman Kalin, surge outra horta urbana. O Prinzessinnengarten é uma iniciativa de Robert Shaw e Marco Clausen, que em 2009 reuniram um mutirão de cerca de 150 voluntários para limpar e semear uma área – oficialmente propriedade do Estado – que há mais de cinco décadas era utilizada como depósito de entulhos. Localizado no cruzamento de duas ruas de movimento intenso, o jardim chama a atenção de longe e, ao contrário da horta privada de Osman, é aberto a quem quiser conhecê-lo.

Shaw e Clausen não tinham experiência com agricultura antes de iniciarem a empreitada, e o que sabem hoje foi aprendido no decorrer do caminho, com os diversos parceiros que o Prinzessinnengarten foi conquistando ao longo do tempo. Colaboração, aliás, é uma das raízes do projeto, que contabiliza 30 mil horas de serviço voluntário por estação de plantio. Os frutos de tanto trabalho – obviamente orgânicos – são vendidos lá mesmo, a preços acessíveis. Além disso, há um pequeno restaurante no local que prepara receitas com os ingredientes colhidos da horta.

Os legumes e as verduras do Prinzessinnengarten são cultivados em caixotes, sobre camas de compostagem, para que possam ser transportados de forma fácil e eficiente. Segundo Shaw e Clausen, em hortas urbanas a mobilidade é um conceito-chave, pois permite que se responda rapidamente às reestruturações da cidade. Os jardins móveis são pensados não como soluções permanentes, mas como alternativas provisórias para terrenos sem uso, negligenciados por seus proprietários legais ou pelo poder público.

A relevância de um ambiente como o Prinzessinnengarten, porém, vai além do cultivo. O jardim, que recebe cerca de 50 mil visitantes por ano, se tornou um importante espaço de socialização e cultura, onde se pode aprender sobre sustentabilidade e colocá-la em prática. Qualquer um pode se voluntariar para participar dos trabalhos necessários para a manutenção do espaço e sugerir e encabeçar novos projetos que explorem seus potenciais. Além disso, eventos como pequenos concertos e exposições de arte, peças infantis e abaixo-assinados que envolvem temas relevantes para a comunidade local também são sediados por lá.

Como aconteceu com a horta de Osman Kalin, o Prinzessinnengarten foi ameaçado pela valorização econômica do bairro: o terreno ocupado corria o risco de ser vendido para a iniciativa privada. Aqui, não havia pastor que pudesse interceder, mas o apoio da comunidade local garantiu a permanência do jardim: a petição divulgada no site do projeto (prinzessinnengarten.net) contou com mais de 30 mil assinaturas.

Em carta aberta, os fundadores defendem que, “quando se trata de áreas públicas, não se deve levar em conta apenas interesses financeiros de curto prazo. O valor social, cultural e o engajamento ambiental também devem ser considerados. Só assim espaços livres poderão ser preservados ou criados”. Uma coisa se sabe: cabe à sociedade plantar a cidade na qual se deseja viver.

 

Luiza Fagá é paulistana. Jornalista e cineasta, atualmente mora em Berlim.