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Passando o chapéu

Não importa se determinada cidade incentiva, ignora ou proíbe a arte feita nas ruas. Tanto faz se os performers – estrangeiros ou locais – trabalham para os turistas ou para quem vive ali. Os anseios, as dificuldades, os sonhos, os impasses e as recompensas de quem usa o espaço urbano como palco parecem independer de questões geográficas. Das brigas com vizinhos a um improvável encontro com os Red Hot Chilli Peppers, histórias dos artistas de rua de Buenos Aires. 

por Kelly Cristina Spinelli

Foto: Mariano Juarez

 

“Obrigado, obrigado a todos! Mas nós não vivemos apenas de aplausos. Não se privem do prazer de contribuir. Um show de tango custa, no mínimo, 100 dólares por pessoa, portanto, se você gostou, não vai sair caro deixar 20 dólares, 20 reais ou 20 pesos”, repete Pedro “El Indio” Benavente, depois de rodopiar com sua parceira Diana Parra pela Plaza Dorrego, em Buenos Aires, capital argentina.

O cabelo enrolado, bem preto e comprido, preso em um rabo, e a camisa com alguns botões abertos ajudam a entender o apelido de um dos mais conhecidos artistas de rua da feira de San Telmo. Em uma das mãos, El Indio segura um chapéu preto, o qual passa ao redor do círculo de espectadores para receber as gorjetas, que parecem fartas.

Senta-se para descansar e escuta uma senhora pedir a Diana: “Meu marido gostaria de dançar com você”. Diana olha para o parceiro, que responde por ela. “Se contribuírem, não há problema”, diz esboçando um sorriso enquanto assiste à moça caminhar com o senhor de cabelos brancos até uma espécie de tapete feito com caixas de papelão, que faz as vezes de palco.

Faz frio e, já que não está se apresentando oficialmente, Diana dança com uma blusa de lã coberta por uma jaqueta. Quando a dupla voltar ao trabalho, após o descanso, ela estará com as costas expostas ao vento, porque seu vestido de show é decotado até quase a cintura.

“A pior parte de trabalhar na rua é o frio, ou o calor nos dias de verão, quando você passa o dia inteiro suando”, fala Diana, ao sentar-
-se, finalmente. Ela é colombiana, tem 24 anos, e dançar na praça é uma das fontes de renda que a mantêm na Argentina. “Muitas vezes, trabalhar na rua é melhor do que em outros lugares. Tem gente que acha humilhante, mas não é. É a sua arte, pura e transparente, não uma coreografia que você repete diariamente, como nas casas de tango, sob uma estrutura puramente mercantilista”, acredita.

Seu sonho é ser convidada a fazer parte de um grupo de baile de uma companhia profissional e sair pelo mundo em turnê (em 2012, o casal Paola Sanz e Facundo de La Cruz, que se apresentava na Rua Florida, foi o vencedor do campeonato mundial de tango e ganhou o passe para uma nova vida: recebeu 40 mil pesos, uma viagem a Paris e a oportunidade de fazer uma turnê pelo Japão).

Já El Indio, mais velho e experiente, fez o caminho oposto: foi integrante do Ballet Nacional Folclórico, esteve em diversas turnês pelo mundo e se apresentou com o balé Bolshoi, na Rússia, mas decidiu largar as companhias por sentir-se mais feliz ao dançar nas ruas – o que já faz há mais de 20 anos. “É assim que eu transmito a minha cultura; não me apresento pelo dinheiro”, diz. Ainda assim, o público o escutará repetir seu pedido por gorjetas como um mantra após cada apresentação. Afinal, o artista tem que viver.

 

Foto: Mariano Juarez

 

O boneco de madeira e a pinga ruim

A alguns quarteirões dali, Guillermo Bernasconi tem seu próprio ritual. Ele está vestido com a mesma camisa e com os mesmos suspensórios que sua marionete, um boneco de madeira com jeito de bêbado que segura uma garrafa em uma das mãos. No chão, um aparelho toca tangos conhecidos, enquanto Bernasconi faz o boneco caminhar por seu pequeno palco, aparentando estar triste com a vida. A marionete tropeça, olha para o céu e toma da garrafinha. Termina desmaiada em um dos cantos, perto de um poste de luz, em uma rotina de 3 minutos, repetida cerca de 90 vezes entre o meio-dia e as 6 da tarde de cada domingo.

Artesão, Bernasconi tomou gosto pelo trabalho com títeres e marionetes quando morou no Brasil e fez oficinas com os integrantes do Giramundo, um dos mais premiados grupos de bonecos do mundo. Diz que em terras canarinhas, onde desenvolveu esse show, seu personagem se chamava Zeca Pagodinho e a garrafinha que carregava tinha uma etiqueta na qual se lia “pinga ruim”. O artista sabe agradecer em português as gorjetas dos brasileiros.

Na Argentina, o boneco se chama Cholito, nome dado por um espectador que acabou virando um dos alunos de Bernasconi. Ele dá aulas e se envolve em toda e qualquer atividade que tenha a ver com as marionetes, já que os artistas raramente conseguem manter-se só com o que ganham nas ruas. Em uma feira como a de San Telmo, que recebe 10 mil turistas a cada domingo, o dia costuma render entre 200 e 300 pesos (86 e 130 reais).

 

 

A vizinhança é quem manda

Nem todo mundo gosta da presença dos artistas pelas ruas da cidade. A feira de San Telmo é dividida em pequenas organizações de vizinhos, que se responsabilizam pelo que acontece em travessas e ruas – são várias pequenas feiras, na verdade. Cada qual decide se permite ou não a presença dos artistas.

Bernasconi trabalha na Rua Defensa, dividindo seu espaço com uma série de mágicos e estátuas vivas que ficam na porta de alguns antiquários. De vez em quando a polícia aparece e manda todos embora, por reclamação dos vizinhos ou dos donos das lojas – em geral fazendo uso do Código de Contravenções da Cidade de Buenos Aires (a Lei 1.472), que em seu artigo 82 prevê multas de até mil pesos por “ruidos molestos”, apesar de a mesma lei, no artigo seguinte, dizer que o trabalho dos artistas de rua não constitui crime.

“Agora está tranquilo, mas no começo do ano não nos queriam aqui”, diz Bernasconi. “Eu sou dos poucos que têm autorização da organização da feira para trabalhar, mas mesmo assim já tive muitos problemas”, conta. O Indio Benavente também já passou por maus bocados – chegou a ser ameaçado de prisão por realizar milongas na Plaza Dorrego. “É incrível como a mesma prefeitura que promove o tango como patrimônio cultural da humanidade aceite tirar os artistas da rua”, indigna-se.

Mesmo assim, em poucas horas de um domingo é possível ver mais de 20 artistas circulando por ali. É uma tradição antiga, em geral impulsionada por crises financeiras. Diz-se que durante o chamado “corralito”, em 2001, quando muita gente perdeu todo o dinheiro de sua poupança e a Argentina mergulhou em uma gravíssima recessão, muitas duplas de tango perderam o emprego em casas de shows e passaram a fazer suas performances em praças e calçadas.

Em dezembro de 2004, um incêndio na boate Cromañón – que resultou na morte de 200 jovens durante um show, figurando uma das maiores tragédias da história contemporânea argentina – fez com que uma orquestra típica de tango recém-formada, El Afronte, não encontrasse lugar para trabalhar. Além do medo generalizado, a prefeitura passou a fiscalizar com mais rigor a estrutura dos lugares onde os grupos musicais poderiam se apresentar.

Os 11 músicos se reuniram e a orquestra passou a tocar em uma das travessas de San Telmo todos os domingos. O cantor, Marco Bellini, mescla as dramáticas melodias tangueiras, cantadas com a ajuda de um microfone, com a venda de dois CDs do grupo e de entradas para shows. “Levem o primeiro por 35 pesos, ou os dois por 60, mais uma entrada grátis para o nosso show de amanhã com aula de tango”, diz, enquanto distribui uma filipeta na qual estão descritas as três apresentações semanais da orquestra, duas delas em clubes de tango. Em 2012, a El Afronte partiu para a quinta turnê na Europa.

Esse é um sucesso que o Buenos Aires Jazz Cuarteto, que se apresenta aos domingos na Pasaje San Lorenzo, uma das travessas da Rua Defensa, nem sequer almeja. O grupo, formado há um ano e meio por colegas do conservatório superior de música Manual de Falla, encontrou na rua uma forma de ganhar dinheiro nos fins de semana.

No entanto, os músicos não consideram o local ideal para mostrar sua arte, pois, além da inadequação acústica, eles têm que focar um repertório mais popular e, no inverno, tocam com os dedos congelados. Gostariam, no mínimo, de ser contratados para apresentações fixas em um bar.

Por enquanto, ganham uma média de mil pesos de gorjetas a cada dia de apresentação, que dividem entre os quatro. E brincam sobre a ocasião fatídica em que levaram apenas 13 pesos para casa cada um, justo quando o preço do metrô saltou de 1,10 para 2,50.

Enquanto o salário não aumenta, os músicos colecionam boas histórias, como a maioria dos artistas de rua. Um mendigo, uma vez, colocou uma empanada dentro do chapéu do quarteto, no lugar da gorjeta – depois recuperada pelo cachorro que estava com ele. Mas talvez o melhor caso seja o contado pelo Indio Benavente. Era 1993, ele estava dançando com uma de suas antigas parceiras ali pelo Caminito, perto do estádio do Boca Juniors, outro ponto turístico importante da cidade. Não entendia por que uns garotões cabeludos colocavam mais e mais dinheiro no chapéu.

“Achei que eram uns torcedores do estádio, mas não fazia sentido”, conta. Foi se informar com um colega, que lhe disse que, na verdade, se tratava dos Red Hot Chilli Peppers. Resultado: o grupo o convidou para se apresentar em seu próximo show, no dia seguinte, no Estádio Obras Sanitária. Dançou “La Cumparsita”, de Carlos Gardel, com sua parceira, tocada ao vivo pelo baixista Flea.

 

Foto: Mariano Juarez

 

Como figurantes num cartão-postal

As ruas de San Telmo são um exemplo do que acontece semanalmente em feiras de Buenos Aires. Uma pequena multidão de turistas percorre o bairro, circulando entre barracas de artesanato, restaurantes e artistas. Há uma série de mágicos, dançarinos, titeriteiros, estátuas vivas e músicos, alguns com local fixo para se apresentar, outros itinerantes.

Anônimos, os artistas de rua são como figurantes nos cartões-
-postais da cidade, atrações para as quais o turista aponta, tira fotos e faz comentários. Poucos sabem que entre eles há ganhadores de mundiais, alunos de conservatórios, profissionais que saem em turnê pelo mundo.

Lidam com vizinhos incomodados e com a prefeitura, que não reconhece sua existência. Enfrentam o frio, o calor e o sol, e a chuva que os impede de trabalhar. Mas reclamam principalmente de quem para, olha, fotografa e não deixa nenhum centavo.

No domingo em que estivemos ali, um grupo de turistas se encantou com Ricardo Ferrer, estátua viva da feira de San Telmo há dez anos. Ele fica das 11 às 19 horas posando na Rua Defensa, bem ao lado do show de marionetes, para ganhar algo entre 200 e 300 pesos. Não come o dia inteiro, nem nos breves intervalos, para não engolir a tinta branca que cobre seu rosto.

“Será que tem que pagar para tirar foto dele?”, pergunta uma moça para a amiga. “Que nada; para ali na frente dele rapidinho.” Elas posam em frente à estátua, batem uma foto e saem andando sem deixar sequer uma moeda.

Poucos minutos antes, os meninos do Buenos Aires Jazz Cuarteto tinham recebido quatro pintas de cerveja de presente, trazidas pelo garçom do bar vizinho. Foram oferecidas por outro artista, um russo chamado Pavel. Músico de uma orquestra de câmara, ele havia se apresentado no dia anterior no Teatro Colón e seguia dali para o Uruguai. Deu-
-lhes parabéns e lhes desejou “muita sorte, muita arte e bastante dinheiro”, resumindo o desejo da maioria dos artistas que vivem de passar o chapéu.

 

Kelly Cristina Spinelli é jornalista, ilustradora e mais uma estrangeira em Buenos Aires. Escreve e ilustra uma coluna semanal para o Terra Magazine e contribui para revistas como Piauí e Trip.

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