revista impressa
edição 4

revista impressa
edição 3

baixar o pdf

edição 2

baixar o pdf

edição 1

baixar o pdf

Flutuação

“Habitante plural”, o escritor gaúcho Paulo Scott transforma em prosa suas experiências em Porto Alegre, Garopaba, Rio de Janeiro e Londres.

por Paulo Scott
ilustração Nucci

Ilustração: Nucci

 

[...] “Sim”, eu disse com calma, baixinho, mas eu disse.

[...] Cidades começam sem elogio; algumas em “tripulação… pouso autorizado”, outras com o sonambulismo das rodoviárias e o “táxi?… táxi?…” do saguão. Claro, há outras tantas formas de começar uma cidade e de organizar a sua irrefreável solidez. A solidez de uma cidade é o que a identifica. É esse mineral colado em minha roupa, na sola dos sapatos, nas divisões da carteira.

[...] E esta, sobre você, a cidade onde moro; firme como todas as outras, começando numa longa volta de bicicleta e num pouco de umidade deixada no ar. Seu tratamento é maior do que os aluguéis de temporada, seu descanso é aglutinação de restaurantes familiares onde o sotaque nunca é fácil de identificar, alternativas geográficas onde o café da manhã dura até quatro da tarde se você pedir com jeito, onde se encontra cerveja gelada quando quiser.

[...] Minha cidade, meu tabuleiro do Banco Imobiliário (onde não adianta falir e não adianta processar credores, devedores, sócios), onde se trabalha dentro dum sonho e da cegueira completa também. Premonição de inquietude. Ruídos que parecem ruídos de chegada, mas que voltam à noite. Âncoras. Minha cidade, minha casa. Minha casa oscila entre o terceiro e o sétimo andar, meu quarto marcha com oitocentos e catorze livros duvidando da memória. Tenho trinta e dois anos.

 

Ilustração: Nucci

 

[...] Meu fígado catará insetos, doces que dissolverão cercas, e meu estômago o progresso na distração dos adolescentes e seu horizonte interminável. Minha cidade. Minha pista de esqueite descoberta ao acaso. Meu bar da esquina (mesmo para as noites em que não devo beber). Meus retornos frágeis, quebradiços. Silêncios cretinos e silêncios que deveriam virar estátua de bronze. Minha estátua de bronze prematura e sustentando familiaridades apesar do esforço, caçando-me o pescoço feito um balão a gás ao qual foram amarrados fios e anzóis.

[...] Ruído. Esse canto de pássaros igualando o mundo em sua musculatura, anatomia de voar. Essas pombas. Esses porcos com asas. A rotina pautada pela cordialidade e pelos estrangeiros, meu computador e o gravador do celular, pelas fotos a que pertencem desfiles de ausência e igualmente para saber depois se eu estava eufórico ou triste. Um homem mediano enlouquece se tentar apreender uma cidade inteira, especialmente se tentar apreender sua solidez.

[...] São muitas as formulações, os transportes (a dúvida é um meio de transporte que costumo usar com frequência). Morar numa cidade é vencer mais do que uma temporada, uma temporada tem exatos três meses, e várias quantidades de horários repetidos a ponto de enjoar; eu sei, não deve ser isso. Tenho trinta e dois anos. Os mais novos me perguntam sobre como é lá onde o bairro negro se encontra com o bairro judeu, e eu respondo que só tenho trinta e dois anos.

[...] Tenho trinta e dois anos como quase todas as pessoas adultas da minha geração. Tenho uma mesa para escrever, a mesa Frankenstein que me acompanha há dezoito anos.

 

Ilustração: Nucci

 

[...] Deixo o trabalho de lado, não é exatamente exaustão, é a estranheza de não conseguir parar de pensar. Solidez. A solidez é um ângulo que me impede de engolir e até de respirar. Os prazos. As histórias. Calço os tênis (tênis são parte inalienável desta cidade), desço até o rio.

[...] Fico observando a flutuação dos objetos. A correnteza que parece inofensiva. Sento num dos bancos e fico olhando a praia da guarda, o nome recente do firmamento. Respiro. Sei que não tenho mais trinta e dois anos. Penso em caminhar pra longe (caminhar pra longe não desfaz a cidade). A água da cidade é seu índice, maquinário universal que flutua e também te afoga se você pedir com jeito. Pender, suspender.

[...] A água me devolve o que vivi certa vez com certa pessoa e também algo que prefiro pensar que perdi. Olho o rio para não pensar além da conta numa condição específica, nas temporadas, no esforço e no orgulho. Pluviais, fileiras de cinema, e parecem as mesmas horas passando.

 

Paulo Scott é escritor. Publicou, entre outros, as coletâneas de poemas A timidez do monstro (Objetiva, 2006) e Senhor Escuridão (Bertrand Brasil, 2006), o livro de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil, 2007) e os romances Voláteis (Objetiva, 2005) e Habitante irreal (Alfaguara, 2011).




One Comment

  1. ah! os rios, estes lagos e mares que nos animam…
    grande scott!