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Anotações de viagens

O escritor Marcelino Freire conta sobre as terras nas quais deixou parte de si, sobre o poder e o impacto de uma primeira vez e sobre as lembranças que leva consigo por todos os pontos que percorre.

por Marcelino Freire
ilustração Fernando de Almeida

Ilustação: Fernando de Almeida

 

A primeira terra em que morri foi Sertânia.
Cidade do Sertão de Pernambuco, a 350 quilômetros do Recife.
Vivi lá até os 3 anos.
Minha mãe arrastou os nove filhos – eu, o caçula.

Fugimos da seca. Para estudar.
Meu filho, ninguém é ninguém sem o estudo.
Você ainda será um médico, um advogado.
Uma mãe nunca cria um filho para ser poeta.

A segunda terra em que morri foi Paulo Afonso.
Cidade da Bahia.
Lembro-me da cachoeira. Minha infância foi cheia de água. Mulungus, algarobas. Havia verde.
E o sol queimava.
A primeira roda-gigante foi em Paulo Afonso. O primeiro cavalinho. O primeiro circo.
No quintal mesmo, de casa, meu irmão montou uma lona para o fim de semana.
E a gente se apresentava. Fazia de conta que era gorila, palhaço, mulher barbada.
O primeiro animal que domestiquei foi um urubu.

A terceira terra em que morri foi o Recife.
Cheguei aos 8 anos.
Minha mãe teimava: ia de um lugar ao outro. Atrás de faculdade.
Para os filhos serem gente.
Moramos no bairro de Água Fria, perto de Olinda.
E Olinda tinha praia e Carnaval.
E eu comprei minha primeira bicicleta com o salário de office boy.
Fiz teatro no Recife.
Tive grupo de poesia.
Fui à casa de Gilberto Freyre.
Participei de oficinas literárias.
Sofri de paixão.
Isso que acaba nos tirando o chão.
A vontade que dava de pular de alguma ponte.
Rio Capibaribe.

A quarta terra em que morri foi São Paulo.
Dia 13 de julho de 1991.
Dia de minha vinda.
Chovia e fazia 12 graus.
Nem imaginava que um dia eu moraria em um prédio de 12 andares.
E beberia na Vila Madalena.
Vasculharia sebos.
Conheceria uma geração de escritores.
Coordenaria oficinas de criação.
Em São Paulo, virei um agitado. Não sei dirigir carros. Tomei gosto por cafés amargos.
São Paulo me deu um sotaque – eu não sabia que falava cantando. E cordelizado.
Eu digo que amo São Paulo. Mas só quero sexo.
Nessa cidade envelheço.
E aqui serei enterrado.

Um pouco da poeira de Sertânia irá comigo. Da paisagem irá comigo. Bodes, berros. O gogó da gata. Um sopro de teimosia irá comigo. Um verbo. A quentura dos galhos. A água do balneário. O Cine Castelo de Paulo Afonso. Homens fantasiados de cangaceiros. No Carnaval. O dia em que meu irmão me vestiu de menina. E eu tinha um cabelo liso. E umas pernas finas. Irá comigo também minha primeira fantasia.

Do Recife as leituras. A poesia de Manuel Bandeira irá comigo. A Rua da União. A 7 de Setembro. O desfile militar – para ver meu irmão mais velho passar marchando. As duas goiabeiras. Meu pai e o jogo de bicho. Meu primeiro conto. O espetáculo de teatro que ajudei a produzir. A casa, a casa. Sempre sonho com aquela casa.

Vejo.

São Paulo habita todas as paisagens. E organiza para mim um inventário. Um testamento. São Paulo um dia acordará para trabalhar. Enquanto eu durmo. Onde estarei? Lá, com certeza, lá. Do outro lado do mundo.

Na primeira terra em que viverei.

 

 

A primeira poesia
Que o tomate te mate.
Que a batata te bata.

A primeira vontade
Ser tuberculoso igual
o Manuel Bandeira.

O primeiro pensamento
Urubu sabe o que come.

O primeiro microconto
- Faz um favor para mim?
- Qual?
- Aperta o gatilho.

Quando a gente escreve cria uma cidade. Uma mistura de todas as cidades em que vivemos. Ou onde gostaríamos de viver. Erguemos um pântano quando a gente escreve. Atravessamos pontes. Abismos altos. Somos habitantes de planetas que não existem. Por exemplo: esta rua.

Não há número nas casas quando a gente escreve. Nem portas. As janelas sempre abertas. E o coração fica no centro. Os mendigos não envelhecem sujos. Quando a gente escreve um bando de gente vem morar no nosso olhar. Sem pedir licença. Nada de alvará. Nem de comprovante de residência. Não me peça para ficar. Quando a gente escreve a viagem é outra. Sempre na próxima esquina. Qualquer palavra solta.

 

 

A primeira foto
Sou eu mesmo?

O primeiro beijo
Foi numa galinha.

A primeira saudade
Não vai embora.

A primeira dúvida
Será que ele gosta
mesmo de mim?

Urgente. Quero uma outra arquitetura para minha literatura. Como se eu tivesse, em algum momento, atravessado uma portinhola para uma outra esfera. Longe de minha ladainha costumeira. Porque me dizem: você escreve muito sobre a miséria. Uma reza sem fim. A moça banguela. Escreve hiper-realista sobre ela. Você não levanta outras paisagens. Por que não tenta? Uma miragem que seja. Por mais pequena, uma nova voz se erga. Uma flor do lácio. No asfalto. Fiquei tentado. Rascunhei alguns gráficos. Pedi conselhos. Andei, por esses dias, vendo fotografias. Reli contos do Cortázar. Reparei os cruzamentos que ele faz. Em Paris, Buenos Aires, no ringue, no nocaute. Misturei as estações. Parece, até, que estou psicografando. Ou sonhando. Terras tão distantes essas que nascem quando escrevemos. Sem contar as plataformas. Eu tenho um blog chamado Ossos do Ofídio.

O último pôste
Quando escrevo sou um índio. E tenho uma tribo. Uma toca. Um rio à minha volta. Um canto único. De guerra. Acredito que defendo. Com unha e flecha. O que resta da floresta.

Quando escrevo sou um velho. Que carrego comigo as dores do tempo. Um coração baleado. Um amor do passado. Em meus poros. Cavo na própria pele uma cova. Para habitar os mortos.

Quando escrevo creio que sou um doido. Varrido do mapa. Que não tenho casa. E vivo à solta. Sou um bicho. Não uma pessoa. Mordo quem venha se meter. No meu mundo. Vou sem medo ao poço sem fundo.

Quando escrevo sou um soldado. Desses que se armam com o próprio corpo. Tocam fogo nas vestes. Correm em chamas. À praça. Um guerreiro em prece. Em brasa. Não sou covarde. Nem viro fumaça.

Quando escrevo estou cantando. Para uma multidão. Uma canção antiga. Algo que sai do peito. Minha palavra ganha força. E peso. Mesmo sozinho no meu canto. Sinto que sou a voz de um povo inteiro.

Quando escrevo eu sou sempre o outro.

Em que me vejo.

Para terminar
Só começando.

 

 

Marcelino Freire é escritor. Publicou, entre outros, os livros Angu de sangue (Ateliê Editorial, 2005) e Contos negreiros (Editora Record, 2005 – Prêmio Jabuti 2006). É criador da Balada Literária e integra o coletivo EDITH, pelo qual lançou o livro de contos Amar é crime (2011). Site oficial: marcelinofreire.wordpress.com.