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Uma praça chamada Liberdade

A bailarina Cassilene Abranches, do Grupo Corpo, faz uma crônica contemporânea por onde passaram escritores modernistas em Belo Horizonte e coreografa movimentos do próprio local e de quem momentaneamente o ocupa. Ao invadir o espaço sem bordas das ruas, cria um novo cotidiano urbano e borra a hierarquia arte-público.

por Ludmila Azevedo

Fotos: Rodrigo Mendes

 

Primeiro ato

Imagine um cartão-postal num sábado desses que vêm depois de um feriado. Uma Belo Horizonte quase vazia. Mas o movimento persistia como se fosse ali a “Cidadezinha Qualquer” descrita por Drummond. O homem anda devagar, a vida anda devagar. Ele também passeava por ali, certamente em passos tranquilos, num tempo em que as pessoas faziam footing. Assim está registrado em crônicas, prosas e poesias.

Devagar. Famílias, casais, amigos e pessoas solitárias estão em dia de pausa. Entreolham-se quando a bailarina chega. Está diante da fonte: luminosa à noite, desligada naquele momento de inspiração. Ela também observa. Alonga-se e, na ponta dos pés, no esticar dos braços, começa a desenhar outros cenários. As maneiras particulares de se mover estão ali, o permanente teste de domínio da estrutura-espaço. O movimento de quadris, assinatura do Grupo Corpo, do qual faz parte, integra-se aos passos da bailarina e coreógrafa – faceta que vem se intensificando desde que assinou Contracapa, para o Ballet Jovem Palácio das Artes.

Não há trilha sonora. Apenas ruídos vindos de um microfone distante sendo testado num palco provisório. É o “som, som”, “ei, ei” de um show que vai acontecer no cair do dia. Pouco importa. Ela segue sua coreografia, explorando seus limites físicos e a velocidade dos movimentos. Alterna narrativas e chega a ultrapassar o que é  meramente visível, palpável ou compreensível. O fotógrafo acompanha freneticamente e impõe outro ritmo à calmaria. Deita no chão para não perder a luz, o foco, o ângulo perfeito, os curiosos, essa tal liberdade que a praça evoca.

As pessoas seguem desconfiadas diante dela. Após longas pausas – ou seriam entreatos? –, quebram o quase silêncio. “Arreda aí para não atrapalhar a moça”, diz um senhor ao neto de bicicleta, que queria sair na foto.

 

 

Segundo ato

Ela se aproxima de artistas de rua munidos de fitas, bolas e outros apetrechos típicos de malabares. A coreografia ganha contornos vigorosos. À medida que amplia os movimentos para acompanhar a trupe vinda da Colômbia e da Argentina, os sorrisos se abrem e ajudam a transformar o sábado vagaroso.

No próximo gesto, entra em cena uma garota. Como quase toda menina, ela também quer ser bailarina. Estica os bracinhos de modo desengonçado, tenta ficar elástica, concentrada e longilínea. Ao chamar a atenção dos demais, cai na gargalhada, sai correndo e se joga no colo dos pais.

O coreto interditado está ocupado. Na escadaria, adolescentes de preto e jeans rasgados parecem alheios a qualquer coisa. “Posso ficar aqui com vocês?”, pergunta a bailarina. Diante do consentimento, ela decifra o código do grupo e reproduz uma atitude mais forte. Saltos repetidos do alto daqueles degraus. Por cima dos jovens, de modo abrupto, radical.

“Ó que dó, gente. Que povo maluco! Ninguém pode arrumar um colchão pra ela?”, desabafa a senhora com pronúncia tipicamente nordestina, em meio a um lugar com uma profusão de outros sotaques. Todos que ocupam o cartão-postal parecem não ser dali.

 

 

Ato final

Em outra extremidade desse lugar oportunamente projetado em estilo eclético, com elementos neoclássicos, a bailarina troca o figurino. A malha preta e justa, que revela o físico de quem desde sempre entrega o corpo ao balé, dá lugar ao vestido fluido claro. Venta e ela utiliza o poste como suporte cênico, pisa sorrateiramente na grama; algo vetado na Praça da Liberdade. Vai entender…

Devagar, as cortinas parecem se abrir. “Olha, mãe, a bailarina”, aponta a menina. O homem com a câmera pendurada no pescoço, às voltas com uma dezena de crianças, fotografa a coreografia. Um grupo observa e conversa ao pé do ouvido tentando interpretar o inesperado. “Sabia que ela era bailarina”, constata a senhora no banco em tom de provocação à amiga ao lado.

Quando os ensimesmados, os retraídos, os desconfiados e os vagarosos pensam se o aplauso é cabível, o sol se despede, enfim, deixando o toque alaranjado nas copas das árvores e nos casarões antigos ao redor da Liberdade. Ele se foi lentamente nesse sábado incomum, como a bailarina, que fica suave até desaparecer e voltar a ser Cassilene Abranches, que, em algumas horas, parte para turnês em outras praças.

 

 

O ensaio (ou as escolhas e sensações)

Montanha. O ponto de partida. Não há lembrança maior do que viver cercado por ela. Ainda que se passem dias, meses e anos fora de Minas, abrir a janela todos os dias e observá-la é mais que um hábito. A ideia de que a curva está em tudo, especialmente na cintura, renderia uma série de possibilidades coreográficas.

Bastou falar em montanha para ela se empolgar e partir para outras geometrias. Conscientemente ou não, a reprodução do movimento da Serra do Curral está impregnada nos jeitos e trejeitos daqueles que andam por aqui. Uma particularidade do povo mineiro, talvez. Foi quando surgiu a intenção de traduzir em dança esse tal gingado.

O palco poderia ser o centrão. A Praça 7, cercada de calçadões largos, a porta do Cine Brasil, que vai reabrir, o Café Nice, que nunca fechou em décadas, ou o casarão que já foi e sempre será o Instituto Moreira Salles. Ela poderia coreografar entre tantos aquis e acolás. Também há a Praça do Papa, com aquele horizonte belo aos pés e a imensidão rochosa ao fundo. Pipas coloridas no céu e as pessoas aproveitando a doçura de não fazer nada.

A Praça da Liberdade, porém, teria um gosto especial. Cercada pelo recém-inaugurado circuito cultural, pelo prédio sinuoso de Niemeyer, pela biblioteca pública, por um palácio e até mesmo por uma edificação conhecida como “rainha da sucata”, a praça renderia observações interessantes. A ideia de fazer poesia com o corpo, “esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica”. Cassilene é conhecida justamente pelo caráter poético que imprime em cada gesto, independentemente da cena, do pretexto ou do lugar. Daí o fascínio da maioria em simplesmente observá-la.

Se a leveza inerente ao balé transparecia a cada momento da intervenção, a artista vivenciava um turbilhão de sensações. A proposta desafiadora a tirou da zona de conforto proporcionada pela caixa preta do teatro. “Aos poucos fui me sentindo à vontade, especialmente por perceber o interesse e a curiosidade das pessoas.”

Instantes tangenciados pela surpresa, pela “troca com os artistas de rua como se fôssemos cúmplices falando a mesma língua. Mas, sem dúvida, o que mais me encantou foi a garotinha que não se conteve e se juntou a mim, na tentativa de reproduzir os mesmos movimentos. Naquele momento, me senti a inspiração para um caminho que ela poderia vir a seguir. Cada segundo na praça foi intenso e absolutamente sensacional”. E assim, o encaminhamento ao espetacular não se reduzia em favor da intervenção, pois encantador mesmo é se movimentar em direção ao outro.

 

Ludmila Azevedo é jornalista especializada em cultura e possui o blog ludj.blogspot.com.