revista impressa
edição 4

revista impressa
edição 3

baixar o pdf

edição 2

baixar o pdf

edição 1

baixar o pdf

As histórias que os prédios contam

Mire e veja: os edifícios têm algo a dizer. Arquitetura e literatura têm mais do que um sufi xo em comum. E o arquiteto e urbanista Luís Antônio Jorge está no centro de São Paulo para ler os enredos e as personagens embrenhados no concreto.

por Paula Desgualdo
fotos André Seiti

 

Mas, hoje em dia, agora, agorinha mesmo, aqui, aí, ali, e em toda parte, poderão os prédios falar e serem entendidos, por você, por mim, por todo o mundo, por qualquer um filho de Deus?! A pergunta é quase a mesma que faz o narrador de “Conversa de bois”, conto publicado no livro Sagarana, de João Guimarães Rosa. Só não está entre aspas, feito citação, porque no lugar de prédios, como deve ter suspeitado o leitor atento, o original traz a palavra bois.

A alteração herege no texto roseano tem um motivo. Ao lado de “Recado do morro”, outro conto do escritor, a narrativa que se inicia com o trecho mencionado serviu de inspiração para que, em 2005, o arquiteto e urbanista Luís Antônio Jorge, professor e pesquisador da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), projetasse a reforma da Casa de Cultura do Sertão, no Morro da Garça, que fica no miolo do estado de Minas Gerais. Antes de esboçar os primeiros traços, Luís estabeleceu um longo e profundo diálogo com os escritos do autor. A compreensão do espaço e da paisagem, o desenho de cada peça de madeira, tudo se deu a partir de uma interpretação do universo poético de Guimarães Rosa e de um confronto entre a obra literária e o lugar no qual ela seria traduzida em obra arquitetônica. Quem visita o centro cultural encontra uma pequena casa restaurada e um pavilhão anexo. A varanda que conecta esses dois ambientes faz uma homenagem à silhueta do morro e ao carro de bois, minuciosamente estudado pelo arquiteto, que acompanhou um mestre carreiro em seu ofício.

E eis que agora, agorinha mesmo, Luís está no centro de São Paulo para falar justamente sobre a relação entre arquitetura e literatura. Nessa vereda de mão dupla, as personagens e os enredos fictícios são referência para a intervenção no espaço, e o espaço, por sua vez, possibilita uma leitura imaginativa digna de trama literária. Aqui não tem sertão, não tem restinga, muito menos boi. Mas, assim como Guimarães Rosa, a literatura extrapola contextos – e também se esconde no concreto da cidade.

 

 

Biblioteca no asfalto

Interpretador sagaz de concreto, o arquiteto logo começa a ler em voz alta o Theatro Municipal, aquele edifício arrojado, erguido no nascer do século passado: “Veja toda essa pompa. Os olhos vão pregando nas colunas, na sobreposição delas. Tem uma ordem embaixo e outra lá em cima, tem o dórico e o coríntio, tem figuras de personagens importantes que retratam as artes… É uma narrativa muito marcada pela figuração”.

Traduzido de jeito que bem entendam os outros, parece que o tal do teatro quer mostrar que somos todos letrados, cultos, brancos, europeus até. Na época em que ele foi desenhado por Ramos de Azevedo, tendo como base a Ópera Garnier, de Paris, a arquitetura acadêmica de belas-artes que o caracteriza era considerada indispensável a qualquer cidade que se pretendesse civilizada.

Para Luís, a forma do edifício se assemelha à de um poema parnasiano, que valoriza a beleza, os detalhes, o vocabulário rebuscado e o resgate de temas clássicos. Ornamentado e imponente, o Municipal diz “olha-me!”, como que recitando o primeiro verso do poema de mesmo nome escrito por Olavo Bilac. Tal qual poeta parnasiano, o arquiteto que projetou o teatro se baseia em uma métrica rigorosa, em códigos preestabelecidos.

Se cada estrutura do espaço urbano pode ser lida como texto – seja poesia, seja prosa –, será possível, enfim, pensar a cidade como uma grande biblioteca? O homem silencia pensativo antes de responder: “As boas bibliotecas normalmente são organizadas. Aqui fica difícil ordenar por gênero ou assunto”.

 

Dom Quixote nas galerias

Já viu prédio que é puro fl uxo narrativo? O Copan, de Oscar Niemeyer, é desse tipo. Desde 1950, insinua seus 140 metros ondulantes no recheio da capital paulista. Para o pedestre que chega da calçada, o térreo é uma continuação da rua. Não tem degrau nem entrada nem qualquer obstáculo que atravanque o seu trajeto. Luís faz gosto: “É uma forma muito generosa de convidar o pedestre e não interromper a narrativa urbana”.

No núcleo arquitetônico central de São Paulo, ele gosta mesmo é das passagens, das travessias, das ruas inventadas no meio dos lotes, dos desvios que costuram ruas e dão nó no asfalto, como a Galeria do Rock, na avenida São João, e as galerias Metrópole, na praça Dom José Gaspar, e Nova Barão, na rua Barão de Itapetininga. Esses acessos o fazem lembrar grandes personagens caminhantes da literatura, aqueles tipos urbanos esquisitos e ociosos caracterizados por Charles Baudelaire no livro As flores do mal ou por Edgar Allan Poe no conto “O homem na multidão”. Sem falar em Dom Quixote, o errante de Miguel de Cervantes que transita tanto por territórios físicos quanto pelos fantasiosos.

É verdade que a imaginação não depende só de referências literárias. Os elementos visuais da cidade estão aqui, aí, ali, e em toda parte, para que cada um os interprete como bem entender. Nesse sentido, é uma leitura muito mais democrática, uma leitura inclusive para iletrados, para qualquer um que deixe o pensamento passear quando vê uma janela entreaberta, uma parede descascada, uma porta colorida. A princípio, tudo na metrópole, inclusive uma fachada lacônica e impessoal, pode render uma boa novela. Ou seria uma crônica? Que tipo de texto, afinal, seria a cidade? O apreciador de atalhos reflete: “Tão estranha narrativa, tão truncada, de tão difícil leitura. Que texto seria esse? Um texto incompreensível, em que os conflitos se exacerbam, as vozes se sobrepõem e os desenhos se digladiam”.

 

 

Gramática urbana

Como qualquer meio de expressão do ser humano, a arquitetura possui uma linguagem própria. Tanto é que, assim como as ideias e os sentimentos transcritos em frases, ela tem uma sintaxe e até uma semântica. “Estudar a linguagem, nesse caso, é entender a cidade como um sistema organizado de informação, pensar se esse espaço informa e se faz parte de um sistema informativo”, comenta Luís. “É assim o discurso da sintaxe urbana, formado basicamente pelo construído e o não construído.”

Os elementos sintáticos seriam os edifícios, as portas, as coberturas, que se trançam em um baile coeso, como se fosse texto mesmo. Já a semântica, um tema emaranhado para os conhecedores do assunto, está relacionada ao uso do edifício, mas não só isso. Alguns pesquisadores dizem tratar-se do significado cultural que ele tem, de como se insere na história e no cotidiano do lugar. Porque é no dia a dia, em um dia qualquer como hoje, que se desenvolve o enredo da cidade. O nascer, morrer e transitar das personagens – de ferro, concreto, madeira, carne, osso e fantasia – é o que dá o tom da narrativa. E, como vida de caminhante é caminhar, os andarilhos agora pedem licença para seguir seus passos rua adentro, em toada de carro de boi.

 

 

Você já leu esse prédio?

A reforma da Casa de Cultura do Sertão, no Morro da Garça, é um entre vários casos em que a ficção extravasa os limites das páginas do livro para se materializar em estrutura arquitetônica. O site Flavorwire listou alguns edifícios erguidos em diversos cantos do globo em tributo a grandes autores e seus escritos.

Na pequena ilha de Martha’s Vineyard, nos Estados Unidos, por exemplo, Steven Holl usou madeira para construir a casa que, em Moby Dick, de Herman Melville, foi feita com ossos de baleia por uma tribo indígena. Já em Barcelona, na Espanha, um conjunto residencial reproduz a fortaleza onde o protagonista de O castelo, de Franz Kafka, não consegue entrar.

Existem ainda versões para Cidades invisíveis, de Italo Calvino – que, aliás, é uma referência de diálogo literário com a arquitetura –, O hobbit, de J.R.R. Tolkien, e Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol. Provas não faltam de que, como cimento e tijolo, a palavra também edifica – em sentido literal.

 

Paula Desgualdo é jornalista e estuda letras latino-americanas. Escreve em yrodar.wordpress.com.