revista impressa
edição 4

revista impressa
edição 3

baixar o pdf

edição 2

baixar o pdf

edição 1

baixar o pdf

Nós que sonhávamos cidades

Não há fórmulas, não há um manual de instruções para lidar com as cidades, esses seres em metástase, que crescem sem parar e sem lógica. A única certeza é que, além delas, não nos resta muita coisa.

por Alessandro Sbampato
ilustração Fabio Cobiaco | Nucci

O ônibus atravessa a ponte Cruzeiro do Sul, e o trânsito escoa lento
como o magma do Tietê. Motoboy descansa no asfalto, mirando
o próprio rosto, sem ver, no espelho vermelho que cresce, quente,
morno, esfriando. Homem dorme, sem sonhos, batendo a cabeça
no vidro suado do ônibus. Traz sobre as pernas um pacote de
cabides de camelô. Subiu no Mappin, vai saltar na Casa Verde, ou
não vai; vai é perder o ponto, acordar no final, cobrador rindo da
baba que pende e empapa a camisa. Vai chegar no fim do segundo
tempo do futebol, jantar o prato frio deixado pela mulher, que
foi dormir. Sem sonhos.

De tempos em tempos, alguém resolve decretar o fim de algo grande e durável: o fim da história, o fim do cinema, o fim das religiões. E o mesmo se passa com as cidades. Mas, a despeito dos rótulos possíveis, que levam em conta aspectos como tamanho, tipo de arranjo físico, planejamento ou influência, o que temos são isto: cidades. Agrupamentos maiores ou menores, mais ou menos perenes, destinados a abrigar uma infinidade de sonhos humanos. E, no fim, o que acaba somos nós, e nossas teorias. As coisas permanecem. Mudam, mas permanecem.
Além das cidades não há muitas opções: como paradigmas diversos, só o nomadismo e o isolamento individual. Exemplos raros nos dias atuais. Não parto de números – isto não é um texto científico –, mas creio que eles sejam estatisticamente irrelevantes comparados aos dos indivíduos que adotam as cidades como arranjo. Até as zonas rurais, ao longo dos últimos dois séculos, emulam aspectos urbanos. Isso mostra a perenidade do modelo. Uma roupa que já não serve, apertada, mas é a que temos. Sem ela, resta a nudez.

Despir a cidade de seus excessos – em vez de nos despirmos da cidade – seria um rumo? Já presenciei essa visão idílica, a de retorno às origens, ser defendida com seriedade, por pessoas ornadas de credibilidade, em mais de um encontro sobre meio ambiente. O abandono das cidades e suas demandas para vivermos, simples, belos e nus, à beira de um regato e um bosque em flor. Não somos tão belos assim, nus, e quanto aos regatos e bosques… Bem, as notícias não são muito boas: acabo de consultar o worldometers.info, que fornece os números da população do mundo em tempo real, e lá encontro a informação de que somos mais de 7 bilhões. Imaginem que lindo seria: todos esses humanos vivendo felizes e equilibrados com a natureza. Como se já não tivéssemos destruído rios o suficiente e ainda restasse canto do planeta aonde não chegam nossos efeitos. Como se a natureza nos fosse sempre benéfica e não usássemos grande parte de nosso engenho criando brinquedos para proteger nossos órgãos vitais. Melhor continuar administrando nossas ocupações – e preocupações – nas cidades, onde podemos eventualmente colaborar, gastando o resto do tempo contendo conflitos.

Engenho e arte

O que importa nas cidades são as pessoas: uma cidade sem pessoas é um sítio arqueológico, um diorama. Tudo o que criamos resulta do processamento de poucos materiais que, disponíveis desde sempre e arranjados de modos diversos, geram artigos diversos, como bicicletas, croissants ou microchips. Artefatos humanos. Somos feitos de engenho e arte, que compensam nossas frágeis couraças. Alguém pode lembrar que a parte de nós que pensa também está contida nessa couraça. Não digo sim nem não, ou pisaríamos terreno pedregoso, para o qual não temos tempo nem sabedoria.

Mas a sabedoria nos distingue. Neste momento, não há no planeta outra espécie lendo bobagens que um semelhante escreveu usando um código criado pela própria espécie, impressas em papel produzido por máquinas elaboradas pela espécie, codificadas e transmitidas por receptores também feitos pela espécie. Se isso não é distinção, não sei o que é. E isso não nos faz só melhores, faz-nos responsáveis. Pensamos o mundo já há algum tempo, com certo êxito e pequenos erros, embora de efeitos devastadores. De vez em quando, algum de nós escreve uma canção razoável, molda uma escultura mediana, desenha uma cadeira confortável. Vamos tentando. Dessas epifanias, mais do que de esforço retilíneo de pesquisa, surgem pontos de elevação: a arte nos distingue e nos faz capazes tanto de nos levarmos a sério quanto de nos ironizarmos. No desequilíbrio está a graça. Nessa perene explicação de que somos assim mesmo e, ora, que bom que somos assim. Nossa velha autoestima.

Despir as cidades de seus excessos seria mais lúcido. Cotidianos mais simples e eficientes, sistemas mais justos e inclusivos. Uma cidade é uma ilusão. Uma tentativa, um acordo tácito de convivência, um aglomerado de expectativas. Pode dar certo e germinar. Pode gerar prosperidade, arte, felicidade e conforto. Uma cidade é uma promessa de patrimônios materiais e imateriais, mas que quase nunca se cumpre, mesmo se mantida. Até hoje, independentemente de sua longevidade ou de seu poder, nenhuma cidade na história trouxe esses benefícios nem ao mesmo tempo nem para todos.

Criadores e criaturas

Cidades são o nosso espelho, e os defeitos da criatura são também os nossos defeitos. Na novela de Mary Shelley tantas vezes adaptada e poucas vezes lida, o super-humano criado por Dr. Frankenstein tem nossos traços no superlativo. É belo e desequilibrado. Sua trajetória destrutiva começa com o abandono da criatura pelo criador. Cidades exigem cuidados constantes, ou tornam-se violentas. Sistemas complexos, em permanente mudança, as cidades crescem aos solavancos.

Tudo vale, portanto, tudo faz sentido e ao mesmo tempo se desvanece quando tratamos da cidade. Não há certezas, há suposições e apostas. Palpites e desejos, vontades e estratégias. Fórmulas, não. Porque fórmulas são para situações estáveis: cidades são seres em metástase, não em crescimento ordenado. Cidades não têm manual de instruções.

E não há terapias para as cidades. A cidade é um ponto de vista. A cidade do viajante não é a mesma do mensageiro. A paisagem do pintor diverge da análise do planejador. Qual é a real? A resposta é: não há tal coisa. Tudo é um delicado caleidoscópio, um ajuste entre fragmentos de sonhos individuais, justapostos e refletidos. Quando achamos uma certeza e queremos mostrá-la, orgulhosos, notamos que, sob outro ponto de vista, seus fragmentos se movem, e tudo muda. Tudo é sonho.

Faz a via-sacra na hora de comprar o pão, saudando os
velhinhos simpáticos que aproveitam o sol da manhã de Santana
para aquecerem as mãos “artritosas”. Torturadores aposentados,
avôs zelosos, torcedores fiéis. Na banca, lê as manchetes,
pensando como os jornais ainda existem, se tudo o que acontece
está fora deles, e o que interessa acontece agora, quando o papel
já levou tinta. Entra na luz artificial da padaria, dois pãezinhos,
um litro de leite, duzentos gramas de mortadela, por favor.
E o sonho? Acabou de sair. Não, sonho não. Piada batida.
O sonho ainda não acabou.

 

Alessandro Sbampato é arquiteto. Especialista em gestão ambiental e mestrando em design e arquitetura, trabalha em parceria com o arquiteto Roberto Godoy na Ofi cina AR (oficinaar.com) desde 2000 e integra, desde 2008, o coletivo artístico Unidade de Arte Urbana e Ambiente (UAUA).